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Por que você me deixou sozinho?

>> sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

E lá se vai um ano...

A morte é a única certeza que temos nesta vida, mas como eu fui confrontado com duas delas em tão pouco (quatro meses), ainda não assimilei isso muito bem. Ou assimilei, sei lá! É que tem horas que sinto tanto meu pai quanto meu irmão tão presentes na minha vida, que muitas vezes eu mato em mim a sensação de que eles “foram ali e já voltam” para não ficar esperando por eles... Que eles foram ali, eu sei. Que eles já voltam, não! Eles voltam nas lembranças (na verdade, nas lembranças eles nunca saem).

A diferença de idade entre mim e meu irmão era de 11 anos. Ele, mais velho. Quando eu tinha 7 anos, ele foi estudar fora, em São Paulo. Só fui ter um contato mais presente com ele quando eu, aos 18, fui para lá também para estudar. Ele estava casado. No ano que ele se separou (1992), eu voltei a morar em Bauru.



Não tenho pudor nenhum em dizer isso: ele era alcoólatra. E foi a bebida que o matou. Como ele dizia: “bebi o uísque que pude comprar, fumei o cigarro que pude tragar e comi as mulheres que pude conquistar”. Meu irmão viveu intensamente. Jornalista antenado, e não alienado, meu irmão foi um ídolo para mim, em todos os sentidos. E quando nos aproximamos – como irmãos e como parceiros – por volta de 1995, passamos a compartilhar sonhos, idéias, opiniões e principalmente nos permitimos conhecer um ao outro.

Acho que foi a partir de 1995 que passei, verdadeiramente, a ter um irmão. Em 2000, dois anos depois do tumultuado término do meu noivado, eu vendi umas propriedades e, com o dinheiro, comprei um apartamento. Chamei meu irmão para ir comigo conhecê-lo. Qual não foi minha surpresa quando ele me deu a maior força, falou para eu investir, não ter medo de ficar sem dinheiro, afinal eu teria minha “casa própria quitada”, coisa que muitos brasileiros na minha idade não tinham (eu estava pra fazer 31 anos), nem ele tinha a dele? E assim foi. Acho que foi a primeira vez que verdadeiramente senti que ele se orgulhava de mim.

O desemprego (Banespa, onde trabalhava, foi vendido e ele saiu no PDV) o fez comprar seu apartamento em São Paulo. Vim saber que o que o estimulou a fazer isso foi o meu empenho em ter o meu em Bauru. E comprou o apartamento de seus sonhos, e fez uma reforma que o deixou ainda mais charmoso. Era palco de festas, reuniões de amigos – meu irmão tinha muitos amigos.
Com o tempo e com a convivência, percebi que muitos desses amigos na verdade eram pessoas que dele se aproveitavam para alguma coisa. Passei a contar nos dedos quais eram AMIGOS de fato, e não precisei usar todos os dedos de uma das mãos. O que eu fui perceber depois é que eram esses amigos que ele realmente considerava como tais. Os outros eram figurantes em seu espetáculo que era viver. E a vida dele era isso: uma grande peça de teatro. Mas seu personagem na verdade era ele mesmo, real. Ele não usava máscaras. Não representava; atuava! Seu papel era o do crítico, do sarcástico, do irônico, do turrão, do correto, do mocinho que conquistava a mocinha, mas sempre com um pé na vilania. Vivia nas altas rodas, mas conhecia os métodos da baixa-ralé como se dela sempre fizesse parte. Defendia os seus com unhas, dentes e com produções jornalísticas e literárias capazes de fazer tremer e chorar o mais duro dos céticos.

Consumia informação e cultura como um faminto devora a comida do prato que lhe oferecem. Em sua biblioteca (ainda) há cerca de cinco mil livros, fora os que estão na casa de minha mãe em Bauru. Desses, posso apurar que 80% foram lidos, alguns, relidos.
Gostava de música. Tem uma pilha de discos de vinil que deve chegar a 500. Fora os muitos CDs. Ali, Chicos, Caetanos, Tons, Edus, Elis, Marinas, cantam o amor, a dor, o sofrimento e o prazer. Cantavam a música que embalava a trilha sonora da vida de meu irmão, em noites que pareciam saraus, ou mesmo enquanto ele digitava, sozinho, seus textos ácidos ou seus romances que viraram livros na velha Remington mecânica, Olivetti elétrica ou, mais recentemente, no Infoway Black ou no notebook Acer.

E sempre com uma TV ao lado. Jogo do Santos? Não perdia um no SporTV. Entrevistas com políticos, economistas, formadores de opinião? Via tudo na Globo News. Sessões na Câmara, ele via pela TV Câmara. E o blábláblá que a TV Senado mostrava, ele anotava tudo. E dá-lhe palavrões! Os mais cabeludos que seu repertório conhecia, e que deixavam minha mãe histérica.
Conheceu a Internet e descobriu que podia ter a informação em casa, sem precisar ir à banca de jornal. Descobriu também que podia “amar” pela grande rede. Amor globalizado. Logo, desencantou-se por isso: achava que nada tirava o prazer de segurar um jornal, pegar uma revista e beijar uma boca real. Certas facilidades virtuais podem tê-lo seduzido, mas jamais o conquistaram.

A doença o aproximou da família. A falta de dinheiro também. Passou a ficar boa parte do mês com meus pais em Bauru. Seu notebook, sempre o acompanhando. Criou um site onde difundiu suas idéias, e fez contatos com inúmeras escolas por esse Brasil afora, enquanto ia ganhando prêmios e mais prêmios pelos seus romances infanto-juvenis (O sol em capricórnio e Cesta de três). E suas produções em Bauru eram acompanhadas pelo nosso cachorro Pepe, que ia “fiscalizar” o trabalho do “tio” na janela a cada 10 minutos para, claro, ganhar um carinho no focinho.

Em 2006, ficou definitivamente doente. Seu fígado falou “chega, cansei!”. E há exatamente um ano, seu coração parou e seus olhos foram fazer duas pessoas voltarem a ver o mundo. Era sua vontade que fizemos questão que fosse cumprida. Infelizmente não foi possível doar mais nada.
Um ano. Um ano de saudade. Saudade que cala o peito.

Meu irmão pode ter morrido. Mas enquanto eu viver, ele vai viver comigo. Um irmão que eu fui conhecer há pouco tempo. E pouco tempo pude conviver. Mas, intenso como ele só. Mais que um ídolo, mais que um parceiro, mais que um conselheiro, mais que um ouvinte, mais que um companheiro. Foi simplesmente meu IRMÃO.

Eu te amo, por toda minha vida!

5 bedelhos!:

sparkster 15 de fev de 2008 00:58:00  

bem escrito!
tb tive um pai allcooolllatra... bom nem tem oque comentar neh!!
:****

Jornalista 15 de fev de 2008 08:46:00  

Olá Euzer!!! Ao menos você pode conviver com seu irmão, mesmo que por pouco tempo. Eu amo o meu, 5 anos mais novo que eu. É meu parceiro, a pessoa em quem mais confio. Aprontamos juntos, brigamos, conversamos, rimos, discutimos, elogiamos, criticamos. Imagino como deve ser ruim ter ume perda assim. Assim como não nos avisaram sobre o "Amor", em um texto que você escreveu há alguns dias, no texto "Não nos contaram", o ser humano não foi feito para lidar com a morte. Nos conformamos e aprendemos a lidar com a ausência de alguém, mas nunca vamos entender por que isso teve que acontecer. É um sentimento estranho um misto de revolta, saudade e, até certo ponto, de limitação, pois se há algo que é certo para quem está vivo, é que um dia morrerá, é o limite do ser humano. Enquanto vivemos, a morte é o nosso limite. Um limite que não entendemos.

Juliana Gulka 15 de fev de 2008 09:31:00  

Oi Euzer,
seu texto está emocionante, não consegui parar de ler. A morte é sempre muito difíicl de ser aceita, ainda mais com parentes próximos. Ficará na lembrança, como você mesmo disse, os momentos bons príncipalmente, que passaram juntos. As alegrias, as vitórias, as converssas.
Fique bem meu amigo.
Um abraço

Marco Antonio 15 de fev de 2008 13:07:00  

Estou emocionado de verdade. Não estou escrevendo isso pra te agradar não. Eu de fato estou com os olhos cheios de lágrima aqui neste instante.

Ano passado eu perdi meu avô, que foi um pai pra mim, já que quando meu pai se foi eu era um bebê. Você pode imaginar também a dor que senti e sinto.

Mas é emocionante ver que seu irmão deixou um legado, que você se orgulha dele, assim como eu faço com meu avô. Eu nem quero falar mais sobre isso, não estou em condições... Talvez mais tarde a gente converse.

Mas muito comovente esse texto.

Denise 15 de fev de 2008 17:21:00  

esse meu amigo é um poeta...

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