VIDA DE CACHORRO
>> sexta-feira, 26 de junho de 2009
Bernardo só não tinha a vida que pediu a Deus porque conseguira 80% dela Não se pode ter tudo na vida, mas com o que se tem, fazer de tudo. Para um vira latas, ele tinha, sim, uma vida de rei no apartamento de Henrique.
Henrique acordava meia hora mais cedo para levar Bernardo para uma volta no quarteirão. Apesar de quase 12 anos, ele só fazia xixi no apartamento – e perto de um ralo. Cocô, jamais! Então, antes de ir para o trabalho, Henrique saía para que ele se aliviasse com o “número 2”.
Henrique ia embora e Bernardo se tornava dono do apartamento. Ia comer, beber água fresquinha, brincar com seus inúmeros – e destruídos – objetos de borracha antes de dar aquela dormida básica. Perto de 4 da tarde, Bernardo acordava. Mesmo sem saber o que é relógio, sentia que Henrique voltaria logo para o passeio no parque.
Era assim todos os dias: fim de tarde, hora de ir ao parque, um longo e divertido passeio. Henrique ia conversando com Bernardo que, mesmo sem entender uma só palavra ou o seu sentido, sabia que aquele som era música para seus ouvidos. E pelo tom da voz, percebia se Henrique estava triste, feliz, cansado, animado.
Pausa para descanso. Henrique sentado no chão, Bernardo descansando com o focinho em suas pernas. Era ali um companheiro sempre presente. Até mesmo no seu momento mais difícil, aos dois anos, quando fora atropelado. Henrique nunca saiu de seu lado.
Depois de retornarem, Henrique ia preparar o jantar, e Bernardo comia outra vez e bebia mais água. Os passeios davam sede. Depois, ficava deitado junto ao sofá da sala enquanto Henrique via TV.
No fim de semana, Henrique não ia dormir, mas ao sair, levava Bernardo, de novo para “o número 2” em volta do quarteirão. Bernardo, então, ia para sua caminha esperar o dono voltar lá pelo fim da madrugada.
Bernardo gostava de Cecília, namorada de Henrique. Não suportava a anterior, Rosângela. Mas, mesmo assim, ficou junto de seu dono quando eles terminaram. Agora, com Cecília era diferente. Sentia Henrique feliz e isso lhe fazia bem.
Bernardo tinha não se sabe quantos filhos espalhados por aí. E agora, mais uma namorada vinha ficar dois dias com ele no apartamento no fim de semana. Mais filhotes.Uma semana depois, a doença veio. E Bernardo sabia que a velhice cobrava o fim de seus dias. Doze anos. Doze anos felizes para um vira latas. Henrique não saiu de seu lado até a última batida de seu coração, que ocorreu numa sexta feira. Henrique viajou para o sítio e lá fez o funeral, lembrando as palavras que lera no livro Marley e Eu. Uma cratera abriu-se no seu coração que só o vento do tempo se encarregaria de, aos poucos, ir fechando-a. Essa cratera era a saudade do grande companheiro de uma vida. Do parceiro, do confidente, do mais fiel amigo.
Três meses depois, Henrique criava “Dinho”, ou Bernardinho, um dos sete últimos filhotes de Bernardo.
A vida continua. E um novo amor nascia ali. Sempre abençoado pelo eterno Bernardo. Onde quer que ele esteja.